Pessoas de Destaque – Laercio Sant’ Anna

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Pessoas de Destaque - Laercio Sant'Anna
Nosso primeiro personagem do “Pessoas de Destaque” de 2018 é muito importante para a história da MicroPower e do Virtual Vision. Vamos conferir o motivo?
 
Laercio Sant’ Anna, tem 52 anos, é casado e, atualmente, é Analista de Sistemas da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia – Prodam, no Munícipio de São Paulo, local onde trabalha há praticamente 30 anos.
Laercio conta que aos dois meses de idade, durante uma viagem à casa de seus avós, em uma brincadeira com uma lamparina, que seu avô percebeu que havia algo de errado com a sua visão. “A brincadeira consistia em aproximar uma lamparina acesa aos meus olhos e ir afastando lentamente. Meu avô percebeu que eu não seguia a luz, enquanto uma prima que tinha mais ou menos a mesma idade procurava pela luz atentamente”.
 
Ao voltar para casa seu pai o levou a um oftalmologista, que sem cerimônias, comunicou que Laercio era cego, e que devido a uma má formação de fundo de olho, nada poderia ser feito. “É claro que meus pais procuraram outros recursos, tentando tudo o que se pode imaginar, desde especialistas a curandeirismo. Como eu tenho um irmão que é só um ano e quatro meses mais novo que eu, tive uma infância bastante estimulada no que se refere a participar de brincadeiras e convívio com outras crianças”, conta.
 
Laercio informa que esse convívio com seus irmão foi extremamente importante, pois, para uma criança cega, o estímulo é fundamental para que sua mobilidade se desenvolva bem.
 
Alfabetização
 
Ele compartilha que devido a pouca cultura de seus pais, demorou um pouco para descobrir uma escola especializada e com recursos para o seu aprendizado. Por isso, somente aos nove anos iniciou seus estudos. “Aqui cabe um parênteses, quanto mais os pais de uma criança com deficiência são bem informados, antes começam as intervenções para que esta receba os estímulos e tratamentos adequados para seu bom desenvolvimento”, compartilha. E assim Laercio foi estudar no Instituto de Cegos Padre Chico (instituição voltada às pessoas com deficiência visual). “Foi lá que, além da alfabetização, tive contato com muitas coisas que até então ainda não conhecia. Pude estudar música, participar de práticas esportivas etc.
Como todos eram cegos, haviam atividades adequadas e eu conseguia disputar em condições de igualdade com os demais alunos.”
 
Laercio fez o segundo grau em uma escola comum na cidade de Mauá (SP). Ele conta que, na verdade, o Instituto Padre Chico já havia oferecido condições e autoconfiança para estudar em condições mais adversas. “Digo adversas porque em uma escola comum eu não encontraria mais os livros em Braille, bem como não receberia as lições de professores preparados para o ensino de uma pessoa cega. Em resumo, eu precisaria aprender a me virar. Não é fácil, e não foi muito tranquilo, mas foi lá que percebi que, tudo é negociável, só depende de como conversarmos e convencermos”.
 
Após terminar o segundo grau em 1985, formou-se em violão erudito em 1992, e permaneceu dando aula nesse conservatório até 1999, além de dar aula, tocava em casas noturnas e festas para ter um rendimento extra.
 
Voltando no tempo
 
Laercio relembra que graças a um contato, em outubro de 1985, da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo com a escola onde fazia o segundo grau, recebeu um convite para que participasse de um curso de informática para cegos. Era uma parceria entre a ADEVA (Associação de Deficientes Visuais e Amigos) com a APPD (associação de Profissionais de Processamento de Dados). A ADEVA entrava com os monitores e material didático, e a APPD com o espaço e a verba necessária para o curso.
 
Ele conta que até então ele não tinha a menor ideia do que era possível se fazer com um computador, pois queria mesmo era trabalhar com música. Mas como um amigo que havia estudado no Instituto de Cegos Padre Chico também ia fazer o curso, Laercio resolveu iniciar. “Foi nesse curso que descobri que gostava de informática. O primeiro curso foi de lógica. Fiz outros cursos e em 1988, depois de ter passado em um concurso, entrei na Prodam como programador trainee.”
 
Sant’ Anna conta que quando entrou na Prodam, já haviam cegos trabalhando em vários departamentos da empresa. Embora não houvesse um ambiente preparado como o que ele tem hoje, muito já havia sido feito para se poder trabalhar. Mas foi na década de 90, segundo ele, que houve um grande avanço no acesso do cego ao computador, pois surgiram os leitores de tela para PC. “O cego passava a ter condições de fazer uso dessa tecnologia em sua casa, podendo ter no microcomputador, um aliado para leitura de materiais que antes só poderia ler se estivesse em Braille”.
 
Em 1994 ele adquiriu seu primeiro computador, um 486, e foi aí que começou uma nova jornada em sua minha vida profissional. “No Brasil os leitores de tela eram pouco difundidos, então era necessário ser autodidata, pois não haviam cursos voltados ao ensino desses recursos aos cegos.”
 
Virtual Vision
 
Em 1995, na tentativa de tirar o máximo proveito do computador, segundo ele, enviou uma carta ao Banco Bradesco pedindo que fizessem alguns ajustes em seus programas de consulta bancária para que ele pudesse, assim como todos os clientes, realizar alguns serviços que eram oferecidos por meio do vídeo texto por conexão telefônica.
 
“O banco se interessou muito pelo assunto, e eu comecei a dar consultoria a eles para que fosse criado um produto que permitisse ao cego usufruir de todos os serviços disponíveis online. O grande problema consistia em encontrar um leitor de tela de baixo custo, pois até então, todos os existentes eram importados e de preços muito altos para a realidade brasileira”.
 
Foi então, que depois de três anos de pesquisa e tentativas, segundo Laercio, foi selado um convênio entre o Bradesco e a MicroPower.
 
“Na época, a MicroPower era uma pequena empresa, com ótimos e talentosos profissionais, que detinha licença para desenvolver uma síntese de voz em português. Na verdade, o objetivo dela era criar um programa para falar com voz sintética o que era colocado na área de transferência. Como já tinha experiência com leitores de tela, não foi difícil mostrar sua importância e o quanto a empresa poderia colaborar com a vida do cego brasileiro. Assim rapidamente a MicroPower criou, inspirado no leitor de textos Delta Talk, um leitor de telas (Virtual Vision), que passou assim a ser o primeiro totalmente desenvolvido no País.”
 
De acordo com Laercio, por se tratar de um banco e uma empresa nacional, não foi difícil aproxima-los e então lançar o Bradesco Net- Internet Banking para Deficientes Visuais. Consciente das dificuldades financeiras das pessoas cegas no Brasil, o Bradesco passou a distribuir gratuitamente este produto para seus correntistas, o que permitiu que o Virtual Vision rapidamente se difundisse no País. Além disso, sob coordenação da Fundação Bradesco e MicroPower, forma-se um grupo de trabalho chamado Capacitação e Empregabilidade para os Deficientes Visuais.
 
Produto reconhecido mundialmente
 
Graças ao ineditismo do banco e ao sucesso do produto, em 1998, Bill Gates visitou o Bradesco, conheceu e indicou o Bradesco Net – Internet Banking para pessoas com deficiência visual (Virtual Vision) para o prêmio “Smithsonian Computerworld Awards”. Laercio, Executivos do Banco Bradesco e da MicroPower visitaram a sede da Microsoft e apresentaram o Virtual Vision para Steve Ballmer – Presidente da Microsoft em Redmond – Seattle. O projeto ficou entre os cinco finalistas na premiação de 1998/1999.
 
Redmond, WA at Microsoft Conference Room
Laercio Sant’Anna e Denis Renato Costa
 
De lá para cá, a fundação Bradesco qualificou milhares de pessoas no uso do Virtual Vision. O Virtual Vision não só foi usado para todos os serviços do banco do Bradesco, mas para acesso a todos os produtos da Microsoft. “Hoje, muitas pessoas conseguem trabalhar por meio do Virtual Vision. Quando surge alguma dúvida é só entrar em contato com a MicroPower, que possui uma equipe especializada para auxiliar no que for necessário. O Virtual Vision já está na versão 10 e ajudando milhares de pessoas e entidades. Foram muitos os avanços conquistados por meio do Virtual Vision”.
 
Acessibilidade no Século XXI
 
Para Laercio foram muitos avanços conquistados nos últimos anos em relação à acessibilidade para as pessoas com deficiência visual, principalmente no mercado de trabalho. “Cada vez mais temos pessoas com deficiência trabalhando em empresas, é um avanço em todos os sentidos, porque as pessoas passam a serem consumidoras, enquanto consumidoras exigem e as empresas que desenvolvem produtos se interessam a considerar a pessoa com deficiência, porque ela passa a trazer recursos, enfim, é a sociedade se desenvolvendo e a pessoa com deficiência fazendo parte dela efetivamente”, afirma.
 
Laercio conta que existe um lema que está sendo muito utilizado atualmente que é: nada sobre nós, sem nós. Isso em relação as pessoas com deficiência.
 
“Eu acho muito importante que a pessoa com deficiência se qualifique, não se acomode em hipótese alguma e exija o que ela quer, cobre da sociedade. Porque as pessoas ainda falam, ah, existe muito preconceito. Com certeza, existem sim, muitos preconceitos, mas eu entendo que a maioria das vezes é um desconhecimento, é uma falta de saber como lidar, como fazer e o que oferecer para a pessoa com deficiência. Afinal, como eu, como pessoa com deficiência, vou pedir ou reivindicar algo, se eu mesmo não sei o que eu quero. Então cabe a nós, pessoas com deficiência, não se acomodar, se qualificar, se informar, saber o que existe e ver a melhor maneira de como solicitar para que as empresas, para que os governos desenvolvam recursos e serviços que efetivamente nos atenda. Então o recado para a galera toda é isso, não se acomodem, procurem estar antenados. Aquela história, né, não vai esperar acontecer, vamos fazer a história juntos.”
 
Confira o vídeo:
 
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